A trajetória do Mercedes-Benz Classe A é curiosa. Ele surgiu como monovolume ainda nos anos 1990 e teve uma segunda geração, nesta mesma configuração. Em 2012, o modelo assumiu o formato hatch e um conceito mais despojado, para conquistar um público jovem. Agora, na quarta geração, lançada ano passado – e mostrada no Salão de São Paulo ‑, a aposta é ainda na juventude abastada. Isso hoje em dia significa ir além da sofisticação, do conforto e da boa dinâmica características da marca e apostar na conectividade. Como fica evidente na versão A250 Vision. O hatch é o primeiro modelo da marca a receber o novo sistema MBUX, definido pela Mercedes como um sistema multimídia inteligente e intuitivo. O MBUX utiliza comandos de voz, como nos celulares mais modernos, para regular temperatura, sistema de som, luz ambiente e aplicativos. O modelo, que chegou ao mercado no início do ano, custa agora R$ 201.900.

 

A ideia de transformar o Classe A numa extensão do celular fica explícita assim que se entra no modelo. Em vez de painel e monitor de console, aparece um gigantesco tablet horizontal flutuante. Ali estão, na verdade, duas grandes telas de 10,25. A parte atrás do volante funciona como um painel digital, com velocímetro, conta-giros, computador de bordo, etc. Na área sobre o console são projetadas informações de som, GPS, telefonia, etc.

 

Para melhorar a interface com os ocupantes, praticamente todos os comandos são redundantes. Muitas vezes, uma mesma função pode ser configurada diretamente por toque na tela, pelo sistema de comando vocal, pelo volante multifuncional ou pelo pequeno touchpad instalado no console central. Por conta desse touchpad, o câmbio foi deslocado para a haste direita do volante. No caso específico do ar-condicionado, há ainda um pequeno painel de controle com botões, logo abaixo da tela. O A250 peca em um detalhe de conectividade: tem apenas entradas do tipo USB-C, que não encaixa diretamente com nenhum celular atual. E até mesmo adaptadores são difíceis de encontrar.

 

A Mercedes garante que o visual do novo Classe A exibe o conceito estético que será seguido pelos outros modelos da marca. Os faróis alongados com elementos cromados e grade do radiador ostentando a estrela da marca sobre uma barra cromada. As dimensões também estão mais generosas que na geração anterior. Ele tem agora 4,42 metros de comprimento, 1,80 m de largura, 1,44 m de altura e 2,73 m de entre-eixos. Ganhou 13 cm comprimento, 2 cm na largura, 1 cm na altura e 3 cm no entre eixos.

 

Sob o capô, o A250 traz um propulsor 2.0 turbo de quatro cilindros, capaz de gerar 224 cv de potência e 35,7 kgfm de torque, gerenciado por uma transmissão de dupla embreagem de sete marchas. Ele é capaz de acelerar o modelo de zero a 100 km/h em 6,2 segundos. A versão tem ainda o sistema Dynamic Seletc, de modos de condução entre Comfort, Sport, Sport+ e Eco, que altera o comportamento de câmbio, motor e direção. Na versão, a suspensão dianteira é McPherson e a traseira é multilink com quatro braços, com o eixo montado em um subchassis. E apesar do poderio do trem de força do A250, o acerto de suspensão do Vision é o mais macio disponível.

 

Ponto a ponto

Desempenho – O motor 2.0 turbo tem enorme facilidade para movimentar o A250. Mesmo que não seja exatamente um carro leve – tem 1405 kg ‑, os 224 cv de potência e os 35,7 kgfm de torque, já máximos aos 1.800 giros, deixam o modelo muito bem-disposto. Em nenhum momento falta motor. A máxima, limitada eletronicamente, é de 250 km/h, enquanto o zero a 100 km/h é cumprido em 6,2 segundos. Nota 10.

 

Estabilidade – O sistema suspensivo do Classe A é extremamente eficiente. A configuração é clássica para modelos de luxo: McPherson na frente e multilink atrás, mas tem umas bossas a mais, como apoio do eixo em subchassis e diversas peças em alumínio. O resultado é um carro extremamente neutro, sem qualquer menção de rolagem de carroceria. Apenas se levado ao limite, tende a soltar um pouco a frente, o que é prontamente corrigido pelo controle de estabilidade. Nota 9.

 

Interatividade – É um dos pontos altos do A250 Vision. O sistema MBUX, com controles redundantes para praticamente qualquer função, permite que o usuário decida como quer se relacionar com o modelo: comando de voz, touchpad, toque na tela ou através dos inúmeros botões do volante multifuncional. O carro tem ainda câmara de ré, sistema de frenagem automática, etc. O único ponto contra é a conexão por cabo tipo USB-C, praticamente inexistente no mercado brasileiro. Nota 9.

 

Consumo – O Classe A250 recebeu notas B na categoria e no geral no programa de etiquetagem veicular do InMetro. Ele alcançou médias de 10,5 na cidade e 14,6 na estrada, sempre com gasolina. Não é espantosamente econômico, mas é bom lembrar que se trata de um modelo com 224 cv. Nota 8.

 

Conforto – O entre-eixos de 2,73 metros dá uma pista do enorme espaço interno do novo Classe A para pernas, ombros e cabeça de quatro adultos. Aliado a isso, há um isolamento acústico perfeito, bancos extremamente confortáveis e a suspensão Comfort, que filtra todas as irregularidades do piso. Em relação a equipamentos, o A250 Vision traz chave presencial, ar-condicionado automático, teto solar panorâmico e sistema de estacionamento automático. Nota 9.

 

Tecnologia – A única carência do A250 Vision neste aspecto é em relação a recursos ADAS, sigla sistemas avançados de assistência à condução. Ele tem apenas o sistema de frenagem de emergência, mas falta, por exemplo, controle de cruzeiro adaptativo ou controle de faixa de rolagem. Em compensação, tem todo o resto: iluminação full led, sete airbags, painel digital, câmbio automatizado de dupla embreagem e sete marchas e todos os controles dinâmicos normais, como tração e de estabilidade. O motor e o câmbio são de última geração e a plataforma é nova. Nota 9.

 

Habitabilidade – O espaço interno é surpreendente para um hatch médio. O entre-eixos de 2,73 metros permite um ambiente bem generoso. A pequena altura do modelo dificulta um pouco o acesso – é preciso se abaixar muito para entrar ‑, mas as portas têm bom ângulo de abertura. Há um número razoável de porta-objetos no interior, como no console central, nas portas e dentro do descanso de braços dianteiro. O porta-malas se vale da ausência de sobressalente, já que o modelo conta com pneus runflat, e comporta 370 litros. Nota 8.

 

Acabamento – A qualidade dos materiais segue o padrão de excelência da Mercedes e a mistura de materiais é bem feliz, com couro com pespontos, muito alumínio escovado, ponto cromados, acabamento em preto brilhante e em fibra de carbono. Além disso, o enorme “tablet” substituiu o painel e a tela do sistema multimídia cria uma ótima impressão e passa a ideia de tecnologia. É condizente com o de um carro que custa R$ 200 mil. Nota 9.

Design – Segundo a Mercedes, o design do Classe A vão orientar a estética dos futuros modelos da marca. São linhas limpas e modernas, que misturam elementos orgânicos com geométricos. A frente com faróis afilados, a grande grade e os vincos de musculatura na lateral conversam bem entre si. Não é nada revolucionário, mas é bem equilibrado e atraente. Nota 8.

 

Custo/benefício – Um hatch médio de R$ 200 mil deveria trazer um pouco mais de equipamentos que os oferecidos pelo A250 Vision. De qualquer forma, é um carro potente, elegante e com muita tecnologia. A faixa de preço não fica distante da praticada pelos rivais diretos como Audi A3 e BMW Série 1, com motorização semelhante. Nota 7.

 

Total – O Mercedes-Benz Classe A250 Vision somou 86 pontos em 100 possíveis.

 

Impressões ao dirigir

 

Evolução palpável

Buenos Aires/Argentina – Conceitualmente, o novo Classe A não se distanciou muito do antecessor, que já buscava atrair um público jovem. E ele ainda faz isso, mas com a intenção de fazer os jovens voltarem a se interessar por automóveis. Por isso, o novo Classe A representa uma evolução na direção de se tornar uma extensão do celular, que por sua vez é hoje uma extensão dos próprios jovens. Daí a enorme preocupação em tornar o modelo o mais conectável possível. Mas, na verdade, o Classe A evoluiu em todos os aspectos. No espaço interno, na dinâmica, no design e, no caso do Vision, no conforto.

 

O motor turbo 2.0 de 224 cv movimenta o modelo com enorme facilidade. Se usado de maneira social, em ruas e estradas, não há situação em que se sinta falta de potência. Ele tem números de desempenho semelhantes ao do Volkswagen Golf GTI, mas ao contrário do hatch da marca generalista, ele age como um modelo de luxo. A potência é sempre liberada de forma progressiva, elegante mesmo. Ou seja: não instiga o motorista a buscar o limite. No entanto, quando a esportividade dele é explorada, responde bem. É praticamente neutro nas curvas e os controles eletrônicos são pouco intrusivos.

 

Mas o melhor do Vision é o conforto. O espaço interno é generoso e a ergonomia dos bancos permite que se faça longas viagens sem qualquer cansaço. A suspensão não é extremamente macia, mas consegue filtrar muito bem as irregularidades e, em consonância com a isolamento acústico, cria um ambiente aconchegante e agradável, incrementado pelo charmoso teto solar panorâmico.