Briga de cachorro grande
A emblemática Ford F-150 lidera o mercado em julho no segmento de picapes grandes de luxo
As fabricantes têm de ir aonde o dinheiro está. No Brasil, boa parte do PIB se origina no agronegócio e nada mais natural que tentar alcançar os bolsos dos novos ricos do campo. As versões de luxo das picapes médios já apontavam para esse potencial, que se consolidou nos últimos com os lançamentos feitos pela Ram. Mas, por mais impressionantes que sejam os modelos da marca, nascida como uma divisão da Dodge, a Ford F-150 tem a história a seu favor. Nos 75 anos que tem de mercado, essa picape grande emplacou mais de 40 milhões de unidades no mundo. E a atual geração, a 14ª da história, é a que consegue se aproximar mais do comportamento de um automóvel de passeio. E é um mercado que tem potencial para mais. Tanto que a rival direta, RAM 3500, vem obtendo, em média, 400 emplacamentos por mês. As duas têm conteúdo e preços semelhantes. A F-150 chegou por R$ 479.990 na versão Lariat e R$ 509.990 na mais luxuosa, Platinum, e vem mantendo os preços desde o lançamento. Em julho, a F-150 ficou na liderança entre aas picapes grandes, com 249 emplacamentos – exemplares do primeiro lote vendidos antecipadamente em abril que só agora estão sendo entregues. Enquanto a primeira fase da 14ª geração ainda desembarca no Brasil, nos Estados Unidos o modelo já prepara o face-lift que será mostrado no próximo mês de setembro.
No confronto direto, a F-150 leva uma ligeira vantagem na motorização, que é ligeiramente mais potente. Sob o capô, a picape da Ford traz um conjunto mecânico da mesma família do usado no esportivo Mustang, mas com modificações para se adequar mais ao uso em utilitários. O motor é o Coyote V8 aspirado com 5.0 litros, que rende 405 cv e 56,7 kgfm. O torque é o mesmo do Mustang e embora tenha 78 cv a menos, na picape a potência máxima ocorre a 6 mil giros, ou 1.250 rpm mais cedo – com o objetivo de melhorar o comportamento em baixas velocidades, como no off-road. O câmbio automático também é o mesmo, com 10 marchas, mas com um escalonamento diferente, mais curto, exatamente para ganhar força. Trata-se do motor mais forte dessa geração, que certamente será a última sem qualquer nível de eletrificação.
O modelo conta com quatro tipos de tração: 4X2 com tração traseira, 4X4 high, 4X4 reduzida, com bloqueio eletrônico do diferencial traseiro e 4X4 AWD, quando o próprio computador do carro define como vai distribuir a tração entre as rodas. Por fora, a F-150 impressiona tanto pelo porte quanto pela modernidade. Ela mede 5,88 metros de comprimento, 1,96 m de altura e 2,09 m de largura, com entre-eixos de 3,69 m. A frente é chapada, o capô tem vincos bem marcados e praticamente cada versão do modelo tem uma grade com variação de desenho específica – são oito diferentes. As rodas são de liga-leve com 20 polegadas – em preto na Lariat e em cromado na Platinum – e calçam pneus AT 275/65 R20. O conjunto óptico em led tem duas alturas e conta com farol alto automático e iluminação em curvas.
As duas versões recebem o pacote FX4, com visual off-road, mas a diferença mais marcante é em relação ao acabamento. A Lariat traz grade, rodas, capa dos espelhos e maçanetas em preto enquanto a Platinum usa cromados. Ambas têm alavanca de câmbio rebatível, para aproveitar melhor o espaço entre os bancos para trabalho ou mesmo uma refeição. Só que no caso da Platinum, há uma superfície desdobrável no apoio de braço que forma uma plataforma, ou uma pequena mesa, com cerca de 40 cm de largura por 80 cm de comprimento. Outros dois diferenciais da versão de topo são o estribo retrátil elétrico – na Lariat é fixo – e os 18 alto-falantes do sistema de som da B&O, com amplificador e subwoofer sob o assento traseiro – na Lariat são 8 alto-falantes.
Por dentro, ambas as versões trazem muito luxo, conforto e tecnologia. Toda a largura do modelo é bem aproveitada internamente. O apoio de braços entre os bancos dianteiros, que oculta um compartimento de 55 litros, poderia facilmente ser substituído por um terceiro assento. Isso significa que na fileira de trás é possível transportar três adultos com absoluto conforto. Sob o assento traseiro há um compartimento com chave para guardar objetos, com 105 litros de capacidade. O ajuste da posição do motorista é feito eletricamente para bancos, pedais e volante. Os revestimentos são em couro com detalhes em metal acetinado, plásticos macios e superfícies em preto brilhante.
O painel é totalmente digital e assume uma paleta de cores dependendo do modo de condução escolhido – são oito: Normal, Eco, Esportivo, Escorregadio, Neve/Areia, Lama/Terra, Rocha e Reboque. A F-150 também conta com um completo arsenal de auxílio à condução, assistente de acoplamento de reboque com câmera, câmeras 360º, iluminação externa no entorno do veículo e sistema Ford Pass, com diversas funções remotas via celular. A central multimídia é a Sync 4, com tela de 12 polegadas que pode ser dividida entre o espelhamento de celulares – sem cabo – com as outras funções do veículo.
A F-150 traz ainda diversas tecnologias que visam facilitar a vida do motorista. Como, por exemplo, é o primeiro modelo da marca no Brasil a oferecer o sistema Sync 4, com uma tela de 12 polegadas, que exibe o sistema de câmera 360º. A picape conta ainda com recursos ADAS como frenagem automática de emergência com detecção de pedestres, farol alto automático, detecção de tráfego nas conversões à esquerda com acionamento de freios se necessário, estacionamento semiautomático para estacionamento paralelo ou perpendicular, controle automático em descidas, anticapotamento e de estabilidade e tração, controle de cruzeiro adaptativo, monitoramento de ponto cego, assistente de manobras evasivas (que induz o movimento correto no volante para evitar um acidente) e sistema de manutenção de faixa de rolagem. (Texto:Eduardo Rocha/Auto Press; Fotos: Divulgação)
Primeiras impressões
Exaltação do exagero
Para a apresentação dinâmica da F-150, a equipe da Ford preparou três situações distintas na pista da fabricante, em Tatuí, interior de São Paulo. A primeira era em asfalto rápido, em um trecho que simula um ambiente rodoviário, com curvas de diversos raios. Apesar das especificações pouco estimulantes da suspensão traseira, com barra de torção e feixe de molas, a picape grande da Ford se sai muito bem. Não há qualquer flutuação nas retas, mesmo em velocidades em torno de 140 km/h. Nas curvas, a neutralidade se mantém, com rolagens laterais muito discretas. O comportamento equilibrado do modelo é acompanhado por um verdadeiro furor quando o acelerador é espremido com intensidade. Seja nas arrancadas, seja nas retomadas, a resposta tem uma força bastante impressionante para um motor aspirado.
A segunda experiência foi em trechos de estrada de terra, incluindo uma rampa de 30%, areia e cascalho. A cada um desses desafios foi superado pela F-150 com extrema facilidade. Pela generosa largura dos pneus de uso misto, com 275 mm, a picape passava por cima das irregularidades sem tomar muito conhecimento e obedecia com bom nível de precisão os comandos do enorme volante – que tem cerca de 40 cm de diâmetro. No limite, o modelo soltava um pouco a traseira – quando abusada na areia, por exemplo –, mas aceita com muita rapidez as correções. A terceira parte do teste foi para avaliar o sistema de manobras com reboque semiautomático, chamado de Pro Trailer. Nele, um botão giratório no painel substitui o volante como interface do condutor, que indica para onde quer que o reboque vá, com o auxílio da câmera e de um gráfico.
Apesar da potência e das tecnologias, um dos pontos que mais impressionam na F-150 é o interior. Tudo é grandioso e extravagante, bem ao gosto dos estadunidenses. Os revestimentos são especialmente requintados e é um agradável exagero regular eletricamente bancos, volante e até a altura dos pedais. O enorme console frontal forma uma parede diante do motorista com suas duas telas de 12 polegadas: a do cluster de instrumentos e a da central multimídia. Entre os bancos, o apoio de braços com nada menos que 40 cm de largura valoriza o generoso espaço interno. É um carro superlativo, que justifica com sobras a fama e a história de sucesso.














