Marcha pela liderança
Argo Trekking 1.3 com CVT junta dinâmica convincente com bom conteúdo
por Eduardo Rocha
Auto Press
Nos últimos tempos, a Fiat fez um trabalho de reconstrução de gama no Brasil. Retirou modelos antigos que vendiam pouco, renovou a linha de picapes, lançou os SUVs compactos que faltavam na linha e agora decidiu aprimorar seu hatch compacto, o Argo. O modelo é fundamental para que a marca se mantenha na briga pela liderança de mercado ‑ em 2023, o Argo ocupa o posto de sexto automóvel mais vendido do país. Uma arma que vem se mostrando cada vez mais efetiva nas vendas é a presença do câmbio automático, equipamento que passa a ser oferecido no hatch da Fiat.

O câmbio CVT agora equipa de série a versão Drive 1.3 do Argo ‑ automóvel com transmissão automática mais barato do país, a R$ 90.990 – R$ 1.550 a menos que o Chevrolet Onix turbo AT. Ele está presente ainda na versão Trekking, que é a única que tem opção também de câmbio manual com motor 1.3. No caso, a diferença entre as configurações com e sem CVT é de R$ 7 mil – além do câmbio, o Argo Trekking AT mantém o controle de estabilidade e tração, que foi retirado da versão com câmbio manual. A participação da versão Trekking, que era de 25% das vendas de Argo vendidos, certamente vai aumentar com o novo equipamento.
No mais, a versão manteve os conteúdos e os parâmetros visuais. A suspensão é 4 cm mais alta, também por conta dos pneus de uso misto de perfil mais alto. No visual, a linha 2023 traz faixas decorativas em preto com frisos na cor laranja nas laterais, no capô e na tampa traseira. No teto, pintado de preto, ele traz a logomarca da versão no teto. Todos os emblemas são em preto fosco, com exceção do Fiat Flag na grade e das inscrições “Trekking” nas laterais e na tampa. Outros detalhes, sempre em preto, identificam a versão, como teto, barras no teto, capa dos retrovisores, aerofólio, molduras das caixas de roda, saias laterais, parte inferior do para-choque traseiro e escape.

No interior, o único detalhe que denuncia a versão é o pesponto laranja nos bancos com o logotipo “Trekking” bordado no encosto. Na unidade testada trazia revestimento em couro sintético perfurado, que é parte do pacote Trekking Top, que custa R$ 2.990 e acrescenta ainda volante no mesmo couro sintético, ar digital e chave presencial para travas e ignição. Além disso, o Argo avalliado trazia câmera de ré, vendida como acessório de concessionária por R$ 826,86. A guarnição na parte central do painel e a moldura do console central recebem uma pintura em cinza grafite metálico, enquanto os demais revestimentos são em preto e há molduras cromadas nas saídas de ar, comandos do ar-condicionado e na base da alavanca de câmbio.
Em relação ao conteúdo, o modelo traz uma central multimídia Uconnect tem tela “touch” de sete polegadas, conectividade com aplicativos Apple CarPlay e Android Auto, com sistema de reconhecimento de voz. Tem ainda direção elétrica, retrovisores elétricos, faróis de neblina, sensor de obstáculos traseiro, volante multifuncional, computador de bordo e assinatura em led na dianteira. O modelo traz ainda rodas de liga leve diamantada.

Sob o capô, o Argo Trekking AT traz o motor Firefly de 1.33 litro, com quatro cilindros em linha e cabeçote, com 98/10 cv de potência e 13,2/13,7 kgfm de torque com gasolina/etanol no tanque. Este propulsor tem eixo de comando único com um variador contínuo do tempo de abertura de válvulas. Com isso, o motor com apenas duas válvulas por cilindro acaba tendo um comportamento semelhante ao de um motor multiválvulas em giros mais altos.
Mas a novidade aqui é o câmbio CVT, que tem sete marchas simuladas e se vale de um escalonamento e um controle eletrônico na transmissão bem-feita, o que reduz drasticamente o chamado Efeito Scooter, quando o motor sobe o giro, mas o carro não desenvolve velocidade. No caso, o Argo tem uma relação final muito curta, em torno de 5,7:1, quando os modelos que usam o T270, versão turbo com câmbio automático, tem relação final em torno de 4,0:1. Para compensar, a marcha mais longa tem relação de 0,40:1 enquanto o câmbio automático fica em 0,67:1. E é essa configuração que dá um comportamento mais interessante ao Argo Trekking CVT (Texto e fotos de Eduardo Rocha, Auto Press).
Ponto a ponto
Desempenho – Por uma mágica da eletrônica, o motor Firefly 1.3, com 98/107 cv e 13,2/13,7 kgfm associado ao CVT consegue animar mais o Fiat Argo Trekking do que na versão com câmbio manual. Pelo menos com o modo Sport ativado – tem um botão no volante para isso. Neste modo, arrancadas, retomadas e ultrapassagens são feitas com mais ímpeto e as subidas de giro são mais rápidas. No modo normal, ao contrário o Argo perde o vigor. Mas em um modo ou de outro, não há o famigerado Efeito Scooter. No; mais, o zero a 100 km/h em 11,8/12,8 segundos (1 segundo mais lento que antes do L7 do Proconve reduzir a potência) e a máxima em 173/168 km/h (era 184/180 km/h), com etanol e gasolina, está dentro do aceitável para o segmento. Nota 9.

Estabilidade – A suspensão ligeiramente elevada não atrapalha no controle da carroceria. Ele tem movimentos mais amplos que nas versões normais e a direção não é tão precisa, mas o condutor ainda sente o carro sob controle o tempo todo. O lado bom é a maior capacidade para encarar a realidade da pavimentação brasileira e os pneus de uso misto copiam menos o terreno, o que gera um comportamento mais neutro. Nota 7.
Interatividade – A unidade testada, com o kit Trekking Top, trazia chave presencial para travas e ignição e ar digital, que se mostrou eficiente. O volante multifuncional é bem completo, os comandos são simples e bem-localizados e é fácil se familiarizar com os recursos do modelo. Mas o Argo perdeu a conexão com smartphones sem o uso de cabos. Agora é preciso espetar o celular para espelhar a tela, o que torna o uso dos recursos da central multimídia menos prático. A tela sensível ao toque tem 7 polegadas, mas boa parte da área é desperdiçado em uma moldura inútil. Nota 6.
Consumo – De acordo com o Inmetro, o Fiat Argo 1.3 AT registra médias de 8,9/10,6 km/l com etanol e 12,8/14,6 km/l com gasolina, na cidade/estrada. Este consumo é um pouco maior que na versão com câmbio manual, principalmente quando se usa gasolina, e rendeu notas B na categoria e no geral. São índices de laboratório, que dificilmente são alcançados no dia a dia. Nota 8.

Conforto – A suspensão mais alta e de maior curso ajuda a filtrar os desníveis e dão um nível de conforto satisfatório na rodagem maior. Os bancos têm boa ergonomia, com bom apoio lateral e o material de revestimento é agradável. A insonorização da cabine, no entanto, continua deficiente e as vibrações em ritmo de estrada chegam a incomodar. O som do motor também invade a cabine, mas não a ponto de atrapalhar uma conversa. Nota 7.
Tecnologia – O Argo tem uma arquitetura montada a partir do Punto nacional, mas com um projeto que incluiu mais aços especiais, plataforma eletrônica e recursos mais atualizados. A versão conta também com auxílios dinâmicos como controle de tração e estabilidade, mas não airbags laterais e de cabeça. A conectividade da central Uconnect andou para trás e perdeu o espelhamento sem cabo. O câmbio, por outro lado, mostrou bons recursos e o motor é eficiente. Nota 7.
Habitabilidade – O Argo oferece uma área da cabine própria para o segmento de compactos, com bom espaço na frente e para pernas e cabeça atrás, mas é bem mais apertado que rivais diretos – como o Onix e o Toyota Yaris, por exemplo. O acesso, principalmente no banco traseiro, exige atenção pelo pequeno vão livre deixado pela porta. O porta-malas comporta 300 litros. Nota 7.
Acabamento – A Fiat normalmente usa texturas e padrões agradáveis, mas o Argo parece estar perdendo o viço. Os materiais usados já não transmitem tanto a ideia de qualidade e robustez, como nos primeiros exemplares do Argo. Os encaixes também estão deixando a desejar, com frestas maiores que as desejáveis. Nota 6.

Design – A versão Trekking mantém detalhes e grafismos de bom gosto, que valorizam as linhas do carro, que já são originalmente agradáveis, com bom equilíbrio e personalidade. Na versão, há muitos detalhes em preto fosco, que se destacam bem com a cor da unidade de teste, Vermelho Silverstone Metálico. As rodas de liga leve diamantadas ajudam a destacar o modelo. Nota 8.
Custo/benefício – Em relação a equipamentos, os rivais diretos do Fiat Argo Trekking 1.3 AT, que custa R$ 96.990, são o Chevrolet Onix LTZ Turbo AT, a R$ 94.950, e o Yaris XL CVT, a R$ 96.550. O Onix é mais completo e o Yaris mais despojado que o Argo, mas ambos são mais potentes. Nenhum deles, porém, aposta no visual aventureiro. Volkswagen Polo TSi AT e Hyundai HB20 TGDI AT atuam em outro patamar. Custam, respectivamente, em R$ 103.990 e R$ 102.090. Ou seja: em termos de custo/benefício, o Argo vai bem, mas não é o melhor. Nota 7.
Total – O Fiat Argo Trekking AT somou 72 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir
A pedidos
A inclusão de câmbio CVT nos carros compactos atendem a uma obrigação e a um clamor. A exigência é da legislação em relação a emissões: o câmbio CVT é o mais econômico e agora, com controles eletrônicos mais precisos, conseguem alcançar relação muito longa e muito curtas e oferecer um desempenho até mais vigoroso que os motores com câmbio manual – mas aí, é claro, a economia vai para brejo. O clamor é do consumidor, que já encara um câmbio automático como uma necessidade, ainda mais quando encara um trânsito insano de cidade grande dia sim e ou também. O Argo Trekking CVT foi lançado exatamente para atender a essas duas exigências.

Embora os motores aspirados como o Argo estejam com pouco prestígio no mercado – o zunido do motor turbo é quase hipnótico –, o Firefly 1.33 litro de 98/107 cv, responde bem às necessidades, se visto pelo lado racional da questão. E apresentou um ganho ao sincronizar com o câmbio CVT. No modo automático, a transmissão oferece um comportamento moderado, com arrancadas e retomadas confiáveis e sem apresentar o Efeito Scooter. Ele pode ser manipulado ainda manualmente, o que é um contrassenso para quem compra um carro com câmbio CVT. Ainda mais porque este dispõe de um modo Sport, com acionamento por um botão no volante, que deixa o Argo até meio assanhado. Se usado sem moderação, pode até ser meio cansativo, pois que o carro se comporta como um corredor instantes antes do tiro de largada.

Já em outros quesitos do comportamento dinâmico, o Trekking é bem equilibrado. A distância livre para o solo ajuda a enfrentar os desníveis do caminho, sem maior impacto na direção e no conforto dos ocupantes. E o ajuste de suspensão consegue um bom compromisso também em relação à estabilidade. Quando forçado, o Argo rola um pouco nas curvas, mas sem colocar em risco o controle do condutor. No fim, é um carro agradável de conduzir e fácil de se acostumar.

Em relação ao espaço interno, não se pode acusar o Argo de ser generoso. Atrás, sofre as limitações normais para modelos do segmento – aceita bem até dois adultos e uma criança, mas é bom mesmo para dois passageiros. Mas medidas são justas e até aceitáveis para um compacto, mas há rivais muito bons no segmento. A central multimídia perdeu o espelhamento sem fio e a tela de 7 polegadas é mal aproveitada, mas os comandos estão nos lugares corretos, o volante multifuncional acessa quase tudo e o controle de cruzeiro tem uma configuração bem amigável. O acabamento é outro ponto que a Fiat deve retomar a atenção, tanto em relação ao materiais, que já foram melhores, quanto à qualidade na montagem.
Ficha técnica
Fiat Argo Trekking 1.3 Automático Flex
Motor: Gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.332 cm³, quatro cilindros em linha, duas válvulas por cilindro. Injeção eletrônica.
Transmissão: Câmbio CVT, continuamente variável, com uma marcha à frente (sete simuladas), e uma a ré. Tração dianteira. Oferece controle eletrônico de tração de série. Possui modos de condução Automático, Sport e sequencial.
Potência: 98 cv a 6 mil rpm (gasolina)/ 107 cv a 6.250 rpm (etanol).
Torque: 13,2 kgfm (gasolina)/ 13,7 kgfm (etanol) a 4 mil rpm.
Diâmetro e curso: 70,0 mm X 86,5 mm. Taxa de compressão: 13,2:1.
Aceleração 0-100 km/h: 12,8/11,8 segundos (gasolina/etanol).
Velocidade máxima: 168/173 km/h (gasolina/etanol)
Suspensão: Dianteira do tipo McPherson com rodas independentes, braços oscilantes inferiores transversais com barra estabilizadora, amortecedores hidráulicos, telescópicos de duplo efeito e molas helicoidais. Traseira por eixo de torção, amortecedores hidráulicos, telescópicos de duplo efeito e molas helicoidais. Oferece controle eletrônico de estabilidade de série.
Pneus: 205/60 R15.
Freios: Discos sólidos na frente e a tambor atrás. Oferece ABS com EBD e assistente de partida em rampa.
Carroceria: Hatch em monobloco, com quatro portas e cinco lugares. Comprimento de 4,00 metros com 1,72 m de largura, 1,57 m de altura e 2,52 m de entre-eixos. Altura livre para o solo de 21 cm. Possui airbags frontais de série.
Peso: 1.170 kg em ordem de marcha.
Capacidade do porta-malas: 300 litros.
Tanque de combustível: 47 litros.
Lançamento no Brasil: 2023.
Produção: Betim, Minas Gerais.
Preço inicial: R$ 96.990.
Preço da unidade testada: R$ 102.353,08 (incluindo câmera de ré, tapete de borracha na cabine e no porta-malas, pintura metálica e pacote Trekking Top).





