Cara e coração
Hyundai Creta tem visual polêmico, mas a dinâmica é equilibrada e o conteúdo interessante
Tem pouco menos de 10 anos que a subsidiária brasileira da Hyundai lançou sua primeira linha produzida por aqui, HB20, com versões hatch, sedã e aventureira. O HB20 caiu no gosto popular e logo galgou o ranking de mais vendidos. E o SUV compacto da fabricante, Creta, seguiu o caminho. Mas foi na renovação dos modelos que os executivos da fabricante sul-coreana deram mostras que conseguiram decifrar razoavelmente o mercado local. No caso do HB20, mesmo com um desenho ousado, a marca simplesmente confiou no novo projeto da linha compacto e substituiu de uma vez as três configurações. Já na reestilização do Creta, houve uma cautela maior.

As novas linhas do SUV mostradas no final de agosto formavam um desenho polêmico, que traz um excesso de informação e conjuntos óticos dianteiros e traseiros subdivididos com formas inusuais. Como antídoto de uma possível rejeição, a marca “criou” a nova versão Action do Creta 1.6 16V, com cara e motor antigos. Enquanto isso, aposta no fim do estranhamento em relação ao Creta renovado, que além das mudanças estéticas, recebeu uma série de conteúdos que o deixaram mais sofisticado – e bem mais caro.
Essa manobra da Hyundai funcionou. O modelo apresentou uma subida de vendas após a chegada do chamado novo Creta e finalizou 2021 em oitavo lugar no ranking de automóveis. E nesses dois primeiros meses de 2022, vem se mantendo em quarto lugar. Boa parte desse desempenho se deve, claro, à versão Action, que tem preço inicial de R$ 107.190 e se posiciona na base do segmento de SUVs compactos. Mas as demais versões também começam a se firmar. Caso da versão Platinum avaliada, que é a mais completa com a motorização 1.0 TGDI, sigla que identifica o motor turbo com injeção direta. Ela está cotada em R$ 150.190, o que é quase 11% mais caro que no lançamento há seis meses. O propulsor de um litro e três cilindros rende 120 cv e 17,5 kgfm e é sempre gerenciado por um câmbio automático de seis marchas com paddle shifts no volante.

Na versão Platinum, o painel de instrumentos fica concentrado em uma tela de 7 polegadas, configurável, acompanhada por um conta-giros do lado esquerdo e marcadores de combustível e temperatura analógicos do lado direito. A tela de toque central do sistema multimídia tem 10,25 polegadas e já inclui com navegação GPS, espelhamento com fio de Apple CarPlay e Android Auto, conexão Bluetooth, duas entradas USB, controles de áudio no volante com reconhecimento de voz e quatro alto-falantes.
A versão recebe seis airbags, luz diurna em led, sensor traseiro, controle de cruzeiro com limitador de velocidade, rodas de liga leve de 17 polegadas, acesso ao aplicativo Bluelink, com funções remotas a partir de um celular, faróis de neblina, carregador de celular por indução, ar-condicionado digital, chave presencial, teto solar panorâmico, bancos em couro marrom, banco do motorista com ventilação e câmera panorâmica com emulação de visão aérea, câmera para ponto cego e freio de estacionamento eletromecânico. A linha até dispõe de sistema de segurança mais evoluídos, como monitoramento de faixa, controle de cruzeiro adaptativo, alerta de colisão com frenagem autônoma, farol alto automático e detector de fadiga, mas ficaram reservados à versão Ultimate, que acrescenta também R$ 14.500 ao preço (Texto e fotos de Eduardo Rocha, Auto Press).

Ponto a ponto
Desempenho – O 1.0 litro TGDI consegue animar o Creta de forma correta, mas sem maiores pretensões esportivas. Como o torque de 17,5 kgfm já aparece aos 1.500 giros, o SUV mostra agilidade em velocidades mais baixas e se adapta muito bem à vida na cidade. Já os 120 cv de potência, no entanto, não fazem o modelo de 1.270 kg desenvolver velocidades mais altas com facilidade. O zero a 100 km/h em 11,5 segundos e a máxima de 180 km/h traduzem bem esse comportamento. Nota 7.
Estabilidade – A altura mais elevada do SUV compacto é bem compensada pelo bom acerto mais rígido da suspensão, que tem uma arquitetura robusta, mas pouco refinada, com McPherson na frente e eixo de torção atrás. O controle de carroceria é bom e as rolagens são praticamente imperceptíveis, mesmo em trechos sinuosos. O controle eletrônico de estabilidade dificilmente é chamado às falas. Nota 8.

Interatividade – Há muitos comandos, mas são todos bem localizados, o que facilita a familiarização. De maneira geral, está tudo à mão do condutor e o volante multifuncional da versão Platinum auxilia bastante a comunicação entre motorista e veículo. A tela de 8 polegadas da central multimídia é sensível ao toque e bem fácil de interagir e a chave presencial torna o carro bem amistoso. A visibilidade traseira é ajudada pelos bons espelhos externos, mas o modelo conta ainda com o sistema de visão aérea virtual fornecido pelas câmeras 360º. A direção é leve para realizar manobras em vagas e ganha firmeza em velocidades mais elevadas. Os faróis têm acendimento automático e, para os dias de calor, o banco do motorista conta com sistema de ventilação. Nota 8.
Consumo – De acordo com o programa de etiquetagem veicular do InMetro, o Hyundai Creta Prestige apresentou médias de 8,3 e 8,7 km/litro em trechos urbano e rodoviário quando abastecido com etanol. Com gasolina no tanque, registrou 11,6 e 12,0 km/l na cidade e estrada, respectivamente. Mesmo dispondo de uma potência limitada, não foi tão bem na avaliação, com notas C na categoria e no geral. Nota 6.

Tecnologia – O Creta usa a plataforma Hyundai-Kia PB, aplicada nos veículos compactos do Grupo. Não se trata de uma plataforma modular e esta falta de modernidade se reflete no peso do veículo. A versão Platinum tem os recursos tecnológicos típicos nos modelos do segmento, como ar digital, seis airbags, tela “touch”, luzes diurnas em led e chave presencial. Mas faltam os sistemas de segurança mais modernos, oferecidos apenas na versão mais cara. Nota 7.
Conforto – Os bancos em couro têm boa densidade e tanto passageiros da frente quanto de trás dispõem de amplo espaço para pernas, joelho e cabeça. Nem mesmo um terceiro elemento atrás incomoda tanto, se o trajeto não for longo. A suspensão, no entanto, é rígida para manter o controle sobre a carroceria. ainda assim, filtra bem boa parte das imperfeições do piso. O isolamento acústico se mostra eficiente e o som do motor só aparece em tocadas mais esportivas. Nota 8.

Habitabilidade – As portas são largas e possuem bom ângulo de abertura para entrar e sair do veículo. Os porta-trecos não são numerosos, mas há bom espaço para objetos nas laterais das portas. Saídas de ar para os ocupantes traseiros ajudam a democratizar o ar-condicionado e o porta-malas comporta bons 422 litros. Nota 8.
Acabamento – O interior do Hyundai Creta Platinum não chega a impressionar diante do valor cobrado pelo modelo. Mas não deixa nada a desejar, diante dos demais SUVs compactos de marcas generalistas. Há plásticos rígidos em locais que poderiam muito bem ser espumados, mas a qualidade dos materiais é boa e os encaixes são perfeitos. O revestimento em couro perfurado dos bancos melhora bastante a impressão geral. Nota 8.

Design – A reestilização do Creta foi marcada pela ousadia. E, a rigor, não trouxe linhas harmônicas ou atraentes. E o estranhamento inicial não foi diluído pelo tempo. Frente e traseira pouco conversam com o restante do carro e o teto separado dos vidros por uma faixa de cor diferente parece apenas uma evolução malsucedida do conceito Sensous Sportness. Melhor seria ser logo substituído pelo conceito Parametric Dynamics, usado em modelos como Elantra e Sonata. Nota 4.
Custo/benefício – A Hyundai pede R$ 150.190 pela versão Platinum do Creta, que traz seis airbags, controle de estabilidade e tração, assistente de partida em rampa, gerenciamento de estabilidade, central multimídia completa com tela touch de 8 polegadas, navegação GPS e comandos no volante. O motor 1.0 TGDI tem uma potência condizente com o dos rivais, movimenta bem o carro, que traz um espaço interno generoso. O problema aqui é que esta versão está nivelada por cima e o conteúdo não consegue justificar o preço. Nota 6.
Total – O Hyundai Creta Platinum somou 70 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir
Mal traçadas linhas
A primeira impressão que se tem diante do Creta é a de que se trata de um modelo maior do que ele de fato é. O visual do modelo se expande pela frente alta, com faróis inusitados, e as linhas retas na lateral combinando com o detalhe do teto separado por uma faixa. Ainda tem um porte imponente e robusto, mas isso não torna o modelo atraente. Os elementos de sedução da versão Platinum moram no habitáculo e sob o capô.

Para começar, o espaço oferecido pelo modelo é bastante generoso. E os recursos de conforto são abundantes. Além dos equipamentos básicos para um SUV compacto, entram na lista o sistema start/stop, direção elétrica progressiva, teto solar elétrico, revestimento em couro, carregador de celular por indução, chave presencial, bancos com refrigeração, monitoramento de pressão dos pneus, central multimídia completa com navegação, seis airbags, além de recursos obrigatórios como ABS e controles dinâmicos de estabilidade e tração. Estes conteúdos eram suficientes para impressionar quatro, cinco anos atrás, quando o modelo chegou ao mercado. Hoje já não são capazes de posicionar a versão como topo de gama.
O motor 1.0 TDGI enfrenta seu maior desafio no Brasil, desde que apareceu a bordo no antigo HB20, em 2016, ainda com 98/105 cv e 15 kgfm. Agora com 120 cv bons 17,5 kgfm, com etanol ou gasolina, ele consegue mover os 1.270 kg do modelo de forma convincente. Na dinâmica em baixas velocidades, desde a arrancada até 60, 70 km/h, o Creta mostra bastante agilidade. Isso torna o SUV sul-coreano bastante agradável de dirigir em ambiente urbano.

Na estrada, em velocidades mais altas, ficam mais explícitas as limitações da baixa cilindrada. É preciso recorrer às trocas de marcha para ganhar fôlego – em uma ultrapassagem mais apertada, por exemplo. O câmbio automático, pelo menos, ajuda na empreitada. Ele responde prontamente às pisadas no acelerador, reduzindo ou estendendo as marchas quando se invoca desempenho e aliviando o gasto de combustível e de força ao se carregar com menos força o pedal direito.
Ficha Técnica
Hyundai Creta Platinum 1.0 TGDI
Motor: Gasolina e etanol, dianteiro, transversal, em alumínio, 998 cm³, com três cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro, duplo comando no cabeçote e comando variável na admissão e escape. Turbocompressor com intercooler, acelerador eletrônico e injeção direta de combustível.
Transmissão: Câmbio automático com seis marchas à frente e uma a ré com paddle shifts no volante. Tração dianteira. Possui controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 120 cv a 6 mil rpm com etanol/gasolina.
Aceleração zero a 100 km/h: 11,5 segundos.
Velocidade máxima: 180 km/h.
Torque máximo: 17,5 kgfm entre 1.500 e 3.500 rpm.
Diâmetro e curso: 71 mm X 84 mm. Taxa de compressão: 10,5:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson. Traseira por eixo de torção com barra estabilizadora. Oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e sólido na traseira com ABS.
Pneus: 215/60 R17.
Carroceria: Utilitário esportivo em monobloco com quatro portas e cinco lugares, com 4,30 metros de comprimento, 1,79 m de largura, 1,64 m de altura e 2,61 m de entre-eixos. Oferece airbags frontais e laterais e de cabeça de série.
Peso: 1.270 kg em ordem de marcha.
Capacidade do porta-malas: 422 litros.
Tanque de combustível: 50 litros.
Produção: Piracicaba, São Paulo.
Preço da versão: R$ 150.190.





