Nova vocação
Subcompacto da marca francesa, com novo visual e mais equipamentos, deixa no passado o papel de carro de baixo custo
Em 2014, quando a Renault decidiu produzir o Kwid na fábrica de São José dos Pinhais, o Brasil era outro país. Na época, a classe operária ainda vislumbrava o paraíso e a marca francesa achou que percorrer esse caminho com seu subcompacto poderia ser uma boa alternativa. Por isso, o carrinho nascido na Índia em 2015 trazia o mínimo de equipamentos para ter o menor custo possível. De fato, em agosto de 2017, quando chegou ao mercado brasileiro, ele custava R$ 29.900, o equivalente a US$ 9.500, e era um dos carros mais baratos do país.

De lá para cá, a famigerada Classe C foi expulsa do mercado consumidor, o modelo perdeu volume de vendas (chegou a emplacar 7 mil unidades por mês, o dobro da média atual) e a Renault se viu obrigada a mudar a vocação de seu carrinho. Para isso, aproveitou o face-lift apresentado no início desse ano para tentar reposicioná-lo como um carro urbano, charmoso, com mais elementos de conforto e um visual moderno. O preço também seguiu a mesma lógica. O Kwid agora custa a partir de R$ 61.090, na versão Zen ‑ o equivalente a US$ 12.200, ou 28,5% a mais que na época do lançamento. O irônico é que, mesmo com esse salto na tabela de preços, o Kwid é hoje o carro mais barato à venda no país.
A unidade avaliada era na versão intermediária Intense adicionada de rodas de liga leve e teto bitom, o que elevou o valor de R$ 65.190 para R$ 67.890. Por outro lado, o modelo é bem completo. De relevante, ele conta com ar-condicionado, sistema start/stop, quatro airbags, direção elétrica, monitoramento da pressão dos pneus, luzes de circulação diurna, câmera de ré, sistema multimídia com tela de 8 polegadas e espelhamento com fio através de Android Auto e Apple CarPlay, computador de bordo com funções Eco Coaching, comando satélite de áudio, vidros dianteiros e retrovisores elétricos.

O que também ajuda a mudar o status do modelo é o novo visual. Apesar de ser um face-lift típico de meia-vida, com mudanças na frente e traseira, o subcompacto ganhou um ar mais moderno e tecnológico. Os elementos da parte frontal foram reorganizados, com os faróis rebaixados para a altura média do para-choque dianteiro, enquanto os piscas e o led da assinatura luminosa ficaram na parte superior. A grade agora é composta por dois frisos e a parte inferior do para-choque, onde fica a entrada de ar, foi também redesenhada. Capô, logomarca e retrovisores mantiveram o desenho antigo. Na traseira, as lanternas mantiveram o formato externo, mas ganharam contorno de duas linhas em led a partir da versão Intense, com três seções internas retangulares.
Por dentro, as alterações foram mais sutis. Mudaram as saídas de ar, que ganharam um anel em preto brilhante – na Zen é em prata. O cluster do painel manteve o mesmo formato, mas os instrumentos ganharam novo desenho, incluindo conta-giros, computador de bordo e velocímetro digital. O console central e frontal mantiveram o mesmo formato básico, mas agora trazem guarnições em preto brilhante. Volante, painéis de porta e formato dos bancos foram mantidos, mas com revestimentos em novos padrões.

Sob o capô, o motor 1.0 de três cilindros SCe do Kwid foi ligeiramente altera para atender aos novos níveis de emissões do Proconve L7, o que fez o modelo receber o sistema start/stop. No fim das contas, o modelo conseguiu melhorar o rendimento e o consumo. A potência subiu de 66/70 cv para 68/71 cv e o torque de 9,4/9,8 kgfm para 9,4/10,0 kgfm. Pelos cálculos da marca francesa, o Kwid 2023 está 3% mais econômico, com consumo urbano entre 10,8 e 15,3 km/l e rodoviário entre 11 e 15,7 km/l, dependendo da proporção de etanol e gasolina no tanque. Esses números são melhores que os publicados pelo InMetro, referentes a 2021 (Texto e fotos de Eduardo Rocha, Auto Press).

Ponto a ponto
Desempenho – Somente com aparelho é possível constatar o aumento de potência entre 1 e 2 cv do motor 1.0 litro de 12V que move o Kwid, para 68/71 cv com gasolina/etanol. Até porque o modelo ficou 14 kg mais pesado – tem agora 820 kg –, o que elevou a relação peso/potência de 11,51 para 11,55 kg/cv. Ou seja, comportamento do carro não mudou. Manteve as boas acelerações e retomadas em função da baixa inércia, com especial destaque para os ganhos de velocidade até 60 km/h. Na estrada, é preciso recorrer às reduções de marchas, mas nada muito diferente dos outros 1.0 aspirados do mercado. Nota 8.
Estabilidade – Por ser alta e leve, a carroceria do Kwid tende a inclinar um pouco nas curvas. O ajuste firme da suspensão ajuda no controle, mas no limite há a tendência de a roda traseira externa à curva sair do chão. A direção elétrica é leve, mas com boa comunicação com o volante. O modelo ganhou controle eletrônico de estabilidade, obrigatório a partir desse ano, que não se mostrou muito invasivo. Nota 7.

Interatividade – O banco do motorista não tem ajuste de altura e coluna de direção não tem ajuste nenhum. E esse é o tipo de detalhe que explicita a velha vocação “neorealista” do modelo. O comando dos vidros elétricos é mal localizado, no console central, que é uma forma de economizar chicote elétrico. Já a central multimídia é fácil de operar e tem bom nível de conectividade e conta com câmera de ré. Falta, porém, sensores traseiros. Nota 6.
Consumo – Os últimos dados oficiais do InMetro indicavam que o Kwid era o modelo térmico mais econômico do país. Segundo a Renault, com a mudanças promovidas no motor, o consumo melhorou. Passou de 10,3/10,8 km/l na cidade para 10,8/11 km/l e de 14,9/15,6 km/l para 15,3/15,7 na estrada, com etanol/gasolina. Os índices devem se manter os mesmos: A na categoria e B no geral. Nota 9.
Conforto – As proporções do Kwid até sugerem um desenho de SUV, mesmo sendo um subcompacto. Isso significa que ele tem um teto alto, permite um posicionamento mais ereto dos passageiros e se traduz em maior área na cabine. Quatro pessoas viajam bem. A suspensão filtra os desníveis do solo corretamente. O isolamento acústico, por outro lado, aparentemente foi abolido em favor da redução de peso e de custo, pois o Kwid é bastante barulhento. Nota 7.

Tecnologia – A plataforma modular CMF-A, da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, é razoavelmente recente – estreou justamente no Kwid indiano, em 2015. O motor 1.0 de três cilindros é moderno, mas foi “aliviado” de alguns recursos tecnológicos em relação ao que é usado no Sandero, que rende com 82 cv com etanol. No Kwid, são no máximo 71 cv, mas passou por modificações que o deixaram mais econômico. Outro ganho veio da obrigatoriedade de recursos como controle de estabilidade e tração, que não eram disponíveis até o ano passado. Qualquer versão tem airbags laterais de série, além dos frontais obrigatórios, e a partir da configuração Intense ele traz uma lista recursos que inclui câmera de ré e central multimídia. Nota 8.
Habitabilidade – O subcompacto tem como principal vantagem o porta-malas, que está na média de hatches compactos, que são modelos maiores e mais caros. O interior carece, no entanto, de porta-objetos. O único, no console central, tem o formato de um porta-copos, mas se for usado para esse fim, não sobra espaço para mais nada. Nota 6.

Acabamento – Apesar de ter crescido de status e preço, os materiais usados no acabamento do Kwid continuaram na antiga lógica de carro de baixo custo, com enormes peças de plástico rígido com texturas pouco atraentes. Por outro lado, os encaixes corretos e o revestimento dos bancos recebem um tecido de boa qualidade. Nota 6.
Design – As linhas do Kwid sempre foram fluidas e simpáticas e agora adicionou uma frente bem moderna, com luz diurna em led, que deu um ar mais agressivo ao visual. As proporções do modelo, alto e curto, cumprem o objetivo de passar a ideia de robustez. As rodas diamantadas e o teto em cor contrastante emprestam requinte ao subcompacto. Nota 8.
Custo/benefício – A versão Intense começa em R$ 65.190 e chega a R$ 67.890 com rodas de liga e teto bitom. Ele ainda traz o central multimídia e câmara de ré, além de vidros, travas e espelhos elétricos e quatro airbags. Os materiais, porém, são nitidamente de baixo custo e o isolamento acústico é inexistente. Tem um único rival direto, que é o Fiat Mobi Like, que não tem câmera de ré, mas quando dotado de central multimídia e rodas de liga sai a R$ 66.190, ou R$ 1.700 a menos. Nota 7.

Total – O Renault Kwid Intense obteve 72 pontos de 100 possíveis.
Impressões ao dirigir
Animal urbano
O Kwid tem as qualidades necessárias para se dar bem nos grandes centros urbanos. Ele mede 3,68 metros de comprimento e 1,58 m de largura, o que permite encarar trânsito pesado e encontrar vagas de estacionamento com muita facilidade. E anda conta com câmera de ré para facilitar o trabalho. E a vida a bordo manteve a qualidade nessa nova fase do modelo. O espaço interno é correto e se vale principalmente do teto elevado – o carrinho tem 1,48 metro de altura. Os bancos não são grossos, mas dão boa sustentação ao corpo e a central multimídia usa com eficiência os aplicativos para Android e Apple.

Em termos operacionais, o Kwid é agradável de conviver. A embreagem é leve e o câmbio de engates macios ajudam a encarar o para-e-anda do trânsito. A suspensão tem o trabalho facilitado pelo baixo peso do modelo e dá conta dos buracos e desníveis. A direção elétrica é leve, mas não anestesia a comunicação com as rodas.
A interação com o carrinho é intensificada através dos aplicativos Eco Scoring e Eco Coaching, que indicam o estilo mais econômico de conduzir e avaliam o desempenho do motorista. Os comandos são simples e bem intuitivos, com exceção do comando dos vidros elétricos, acionado no console frontal. O ar-condicionado é eficiente e quatro passageiros viajam com um bom espaço. O porta-malas também é bem generoso para o tamanho do carro, com 290 litros.
Na hora de acelerar, o moderno motor SCe mostra as vantagens da baixa inércia. Tanto a interna do propulsor, que tem apenas três cilindros, quanto a do carro em si, que pesa de 820 kg. Os 68/71 cv de potência e os 9,4/10,0 kgfm de torque rendem bem e as acelerações do Kwid são convincentes até os 60 km/h. A partir daí, o ganho de velocidade perde o impulso. Para as retomadas, o melhor é recorrer ao câmbio, já que o regime de giros para o torque máximo só chega na totalidade aos 4.250 giros. Nesse momento – e em vários outros ‑, o Kwid mostra um de seus pontos fracos: a insonorização do habitáculo. Ali dentro se ouve os ruídos do motor, de rodagem, os aerodinâmicos e até do exterior.

Ficha técnica
Renault Kwid Intense
Motor 1.0: Gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 999 cm³, três cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro. Injeção multiponto e acelerador eletrônico e sistema start/stop.
Transmissão: Manual de cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Traz controle eletrônico de tração de série.
Potência: 68/71 cv com gasolina/etanol a 5.500 rpm.
Torque: 9,4/10,0 kgfm com gasolina/etanol a 4.250 rpm.
Aceleração de zero a 100 km/h: 13,5/13,2 segundos com gasolina/etanol.
Diâmetro e curso: 71,0 mm X 84,1 mm. Taxa de compressão: 11,5:1.
Velocidade máxima: 156 km/h.
Suspensão: Dianteira do tipo McPherson, triângulos inferiores, amortecedores hidráulicos telescópicos e molas helicoidais. Traseira com eixo de torção com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos verticais. Controle eletrônico de estabilidade de série.
Pneus: 165/70 R14.
Freios: Discos sólidos na frente e tambores atrás. Freios ABS com EBD e assistência de partida em rampa.
Carroceria: Hatch subcompacto em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Com 3,68 metros de comprimento, 1,58 m de largura, 1,48 m de altura e 2,42 m de distância entre-eixos. Airbags frontais e laterais de série.
Peso: 820 kg.
Capacidade do porta-malas: 290 litros.
Tanque de combustível: 38 litros.
Produção: São José dos Pinhais, Brasil.
Lançamento do modelo: agosto de 2017.
Face-lift: janeiro de 2022.
Preço da versão Intense: R$ 65.190.
Preço da unidade testada: R$ 67.890.





