Novos caminhos
Renault quer se consolidar no mercado de carros elétricos com Kwid E-Tech, o BEV mais barato do país
Nos países ricos, os governos costumam premiar os compradores de carros elétricos, com isenções e bonificações, para que os modelos alcancem um valor próximo ao dos carros ICE – sigla em inglês para motor de combustão interna. No Brasil, por ter uma frota menos poluente por conta do etanol, carro elétrico não é exatamente um setor recomendável para investir impostos. Daí a marca buscarem dois outros caminhos. O primeiro é o mercado de luxo, nos quais o maior custo do conjunto elétrico – motor e bateria – se dilui nos preços indecorosos cobrados por Porsche, Audi, BMW, Mercedes-Benz, entre outros. O outro caminho é busca pelo mercado de pessoa jurídica – como acontece já com caminhões e furgões. Esta foi a opção da Renault, com o novo Kwid E-Tech.

A ideia era ser adotado nas frotas das empresas, tanto pela boa imagem de não emitir carbono pelo escapamento quanto pela economia a longo prazo – a partir de 60 mil km, o uso do E-Kwid passa mais econômico que o modelo convencional. Mas a chegada do Kwid 100% elétrico entusiasmou os consumidores normais. Tanto que 80% das 750 unidades já reservadas do modelo foram para pessoas físicas. Passada a novidade, a Renault acredita que a proporção entre pessoa física e jurídica deva ficar em 50-50. O que não deixa de ser impressionante, já que o modelo custa nada menos que R$ 146.990, mais que o dobro do Kwid tradicional. Ainda assim, é o carro elétrico mais barato do país.

O E-Kwid tem especificações bem semelhantes às do Kwid normal. O motor elétrico rende 65 cv e 11,5 kgfm, com 68/71 cv e 9.4/10,0 kgfm do 1.0 de três cilindros do subcompacto. Mas entre os dois há uma diferença abissal de comportamento. O modelo elétrico é cerca de 20% mais pesado, mas conta com o torque instantâneo, com arrancadas mais fortes e menor velocidade final. Ou seja: aprofunda a vocação urbana do modelo.

Por dentro, os dois modelos são bem semelhantes. De relevante, ele conta com painel digital, ar-condicionado, sistema start/stop, seis airbags, direção elétrica, monitoramento da pressão dos pneus, luzes de circulação diurna, câmera e sensor de ré, sistema multimídia com tela de 7 polegadas e espelhamento com fio através de Android Auto e Apple CarPlay, computador de bordo com funções Eco Coaching, comando satélite de áudio, vidros dianteiros e retrovisores elétricos. O nível de acabamento é bem semelhante. Ou seja: típico de modelos de baixo custo.

O visual também é bem fiel ao modelo ICE. A parte frontal traz faróis na parte inferior do para-choque dianteiro, enquanto os piscas e o led da assinatura luminosa ficam na parte superior. A grade é o elemento que dá maior identidade à versão E-Tech. Ela é ela sólida, em material preto brilhante, com frisos cromados que contornam a logomarca da Renault. Outra distinção são os detalhes em dourado no emblema traseiro, na faixa lateral e na moldura dos faróis de neblina. (Texto e fotos de Eduardo Rocha, Auto Press. Foto do interior: Divulgação).

Ponto a ponto
Desempenho – Os números de potência e torque do Kwid E-Tech são praticamente os mesmos do modelo com motor de combustão interna. Aqui são 65 cv e 11,5 kgfm. A diferença é o torque é total e instantâneo desde a imobilidade. Mesmo sendo 150 kg mais pesado que o modelo convencional, o modelo ainda é leve – 977 kg – e apresenta reações quase esportivas nas arrancadas até 50 km/h, em apenas 4,1 segundos. Foi a intensidade desse torque que forçou a Renault a adotar rodas com quatro parafusos nas rodas – um a mais que o Kwid normal. Falta, porém, o sistema one pedal, que permitiria intensificar a potência de frenagem e aumenta a regeneração de energia. A máxima dá conta da vocação urbana do modelo: 130 km/h. Nota 8.

Estabilidade – Por ter as baterias instaladas no piso, a distribuição de pesos melhorou e a carroceria do Kwid E-Tech inclina menos nas curvas do que o modelo convencional. Como o subcompacto já tinha um ajuste firme da suspensão, o resultado é um controle ainda melhor da carroceria. A direção elétrica é leve, com boa comunicação com o volante, mas os freios poderiam ser mais intensos. O modelo ganhou controle eletrônico de estabilidade, que não se mostrou muito invasivo. Nota 8.
Interatividade – Por ter como base um modelo de baixo custo, apesar de custar quase R$ 150 mil, o Kwid E-Tech não melhorou o tratamento que dispensa aos ocupantes. O banco do motorista não tem ajuste de altura e a coluna de direção é fixa. O comando dos vidros elétricos é mal localizado, no console central. Já a central multimídia tem uma tela razoável, é fácil de operar e tem bom nível de conectividade, além de contar com câmera de ré e sensor traseiro. Nota 7.

Consumo – Segundo o InMetro, o E-Kwid tem um consumo de energia equivalente a um modelo a gasolina que fizesse 52,7 km/l na cidade e 38,6 km/l na estrada. A autonomia é de 298 km na cidade e 265 km no uso misto, com a bateria de 26,8 kWh. A recarga em uma tomada doméstica de 220 v passa de 12 horas e num carregador de 7,4 kWh leva 4 horas e meia. Os índices são A na categoria e A no geral. Nota 10.
Conforto – As proporções do Kwid são as de um SUV subcompacto. Tem um teto alto que permite um posicionamento mais verticalizado dos passageiros, com menor demanda de espaço longitudinal. No final, a percepção é de um espaço maior. Quatro pessoas viajam bem e a suspensão filtra os desníveis do solo corretamente. Como o motor elétrico é muito silencioso, foi preciso melhorar o isolamento acústico, pois os demais ruídos, que normalmente são abafados pelo motor a combustão, ficariam aparentes demais. Nota 8.
Tecnologia – A plataforma modular para carros elétricos, CMFA-EV, da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, é razoavelmente recente – estreou no Renault City K-ZE em 2019, e é baseada na CMF-A, usada no Kwid convencional, que é de 2015. O modelo conta com um razoável nível de recursos de segurança, como seis airbags, controle de estabilidade e tração, câmera e sensores traseiros, luz de circulação diurna e monitoramento de pressão dos pneus. O painel é totalmente digital e a central multimídia traz uma tela touch de 7 polegadas. Nota 8.
Habitabilidade – O Kwid tem um porta-malas de 290 litros, semelhante ao de hatches compactos e tem um bom espaço interno. Faltam, porém, nichos e porta-trecos para se ambientar adequadamente. As portas se abrem quase a 90º, o que dá um bom acesso ao interior. Nota 7.

Acabamento – O padrão de acabamento causa um choque quando confrontado com o preço de R$ 146.990 do E-Kwid. Os materiais usados no acabamento ficam na antiga lógica de carro de baixo custo, com enormes peças de plástico rígido com texturas pouco agradáveis e um design pouco elaborado, que não passa a imagem de tecnologia, que um carro elétrico exigiria. Os encaixes e o revestimento dos bancos são corretos. Nota 6.
Design – A única diferença perceptível para o modelo convencional, além dos emblemas de identificação, é a ausência de abertura na grade dianteira. No mais, são as clássicas linhas do Kwid, fluidas, simpáticas e com a frente mais moderna adotada na linha 2023 – exatamente por conta da chegada do E-Kwid feito na China. As proporções do modelo, alto e curto, cumprem o objetivo de passar a ideia de robustez. Nota 8.

Custo/benefício – O E-Kwid é vendido em versão única por R$ 146.990. Ele tem dois concorrentes no segmento de 100% elétricos pequenos: o Caoa Chery iCar, que custa R$ 149.990 e na verdade é um minicarro, e o Jac E-JS1, um subcompacto que sai a R$ 159.990. Além do preço, o Kwid fica em vantagem por conta do tamanho, espaço interno e suporte técnico, tem autonomia equivalente e só leva desvantagem em relação a acabamento. Nota 7.
Total – O Renault Kwid Intense obteve 77 pontos de 100 possíveis.
Impressões ao dirigir
Pacato cidadão
O Kwid convencional é um típico animal urbano. Mas o E-Kwid é ainda mais. As características físicas do carrinho, com 3,73 metros de comprimento e 1,58 m de largura, que facilitam a vida no trânsito pesado e nos estacionamentos apertados, se juntam à excelente capacidade oferecida pela motorização elétrica, com ótimas arrancadas, uma autonomia de quase 300 km – mais que suficiente para quem roda na cidade – e uma certa facilidade de recarga – com alguma disciplina, é possível usar apenas carregador doméstico para se manter em movimento.

Embora as especificações de potência e torque sejam semelhantes, as dinâmicas dos dois modelos apresentam diferenças relevantes. O motor elétrico entrega toda sua força de imediato, assim o que acelerador é tocado. Isso dá um verdadeiro empuxo nas acelerações e retomadas – até porque o câmbio tem uma única marcha e não há perda de tempo na busca da melhor relação. Por outro lado, o E-Kwid é 20% mais pesado. Isso afeta principalmente a velocidade máxima, que fica em modestos 130 km/h, contra 156 km/h do Kwid ICE.

A não ser pelo silêncio, característica intrínseca a carros elétricos, a vida a bordo não sofreu grandes alterações. O espaço interno é surpreendentemente bom para um subcompacto e quatro passageiros viajam com alguma margem de manobra. Os bancos são finos, mas dão boa sustentação ao corpo e a central multimídia usa com eficiência os aplicativos para Android e Apple. O porta-malas também tem uma ótima capacidade, diante do tamanho do modelo, com 290 litros – maior que de alguns compactos.
Ficha técnica
Renault Kwid E-Tech
Motor: Elétrico, síncrono de imãs permanentes com redutor integrado.
Transmissão: Uma marcha à frente e uma a ré. Tração dianteira. Traz controle eletrônico de tração e estabilidade de série.
Potência: 65 cv a 4 mil rotações.
Torque: 11,5 kgfm entre zero e 4 mil rotações.
Aceleração de zero a 50 km/h: 4,1 segundos.
Aceleração de zero a 100 km/h: 14,6 segundos.
Velocidade máxima: 130 km/h.
Suspensão: Dianteira do tipo McPherson, triângulos inferiores, amortecedores hidráulicos telescópicos e molas helicoidais. Traseira com eixo de torção com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos verticais. Controle eletrônico de estabilidade de série.
Pneus: 165/70 R14.
Freios: Discos ventilados na frente e tambores atrás. Freios ABS com EBD e assistência de partida em rampa.
Carroceria: Hatch subcompacto em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Com 3,73 metros de comprimento, 1,58 m de largura, 1,50 m de altura e 2,42 m de distância entre-eixos. Airbags frontais, laterais e de cabeça de série.
Peso: 977 kg.
Capacidade do porta-malas: 290 litros.
Bateria: Com 26,8 kWh de capacidade e 188 kg de peso. Portas de carregamento AC type 2 e DC combo 2.
Autonomia na norma SAE J1634: 298 km na cidade e 265 km no circuito misto
Produção: São José dos Pinhais, Brasil.
Lançamento do modelo: 2022.
Preço: R$ 146.990.





