Anatomia de um sucesso
Jeep Commander Outlander T270 tem comportamento discreto e luxo exuberante para sete ocupantes
Nem a Jeep podia esperar que o Commander se aclimatasse tão bem no Brasil. O utilitário esportivo médio-grande, segmento também definido como SUV-D, foi apresentado exatamente há dois anos. E depois de um começo com vendas modestas, limitadas pelo início da curva de produção, se estabilizou em 2022 e 2023 em torno de 1.600 unidades mensais, à frente de diversos modelos SUV-B e SUV-C. O mais impressionante é que mais 75% das vendas são para quem não consumia SUV de sete lugares. Ou seja: o Commander praticamente inventou o segmento no Brasil.

O até então líder Toyota SW4 manteve em 2022 a mesma média de vendas do ano passado, em torno de 1.140 unidades. A Chevrolet Trailblazer sentiu o golpe, com uma queda na média de 475 unidades em 2021 para 185 neste ano. Conceitualmente, no entanto, esses dois modelos não são rivais diretos do Commander, pois são derivados de picape. Apenas o Mitsubishi Outlander, que tem arquitetura em monobloco, pode ser encarado como concorrente, tanto em relação a preço quanto em conteúdo. E a média de vendas do modelo da marca japonesa caiu de 240 para 150 exemplares de 2021 para 2022.
No entanto, o Commander tem alguns pontos de vantagem. Para começar, a Jeep tem mais de 200 concessionárias no Brasil, tem um visual bem moderno e atraente, a marca agrega um grande prestígio aos veículos e imprime uma ideia de luxo incomparável com a de outros modelos nacionais, principalmente na versão avaliada, Overland. Com isso, o Commander funciona bem como alternativa para modelos importados, que passaram a ostentar preços quase insultuosos por conta da subida acentuada do dólar.

O Commander tem três versões e duas motorizações, que se combinam em cinco configurações, com um delta entre a mais cara e a mais barata de quase R$ 100 mil. A diferença de preço entre as motorizações flex e diesel é de R$ 48 mil e entre as versões Limited e Overland é de R$ 27 mil. A versão mais cara é a Overland TD380 4X4, de R$ 322.690, foi criada a posteriori a versão básica Longitude, sempre com o motor T270, que custa R$ 232.290. Ou exatamente R$ 44 mil a menos que a combinação avaliada, Overland T270, que sai a R$ 276.290 e traz o máximo de luxo com um motor flex que oferece 10% a mais potência que o motor diesel, mas tem 30% menos torque.
O motor GSE 1.3 turbo é o mesmo usado nos outros modelos da Stellantis produzidos em Goiana, Renegade, Compass e Fiat Toro. Ele rende 185 cv e 27,5 kgfm, tem câmbio automático de seis marchas e direciona a força para as rodas dianteiras. Ele até conta com o sistema Jeep Traction Control+, que usa o ABS para frear uma roda com baixa aderência, mas o modelo fica mais à vontade no asfalto. Inclusive todos os ângulos de fora-de-estrada (entrada, saída e rampa) são menores que o das versões com motor diesel.

Em relação ao conteúdo, o modelo é bem completo desde a versão Limited. Ele traz iluminação full led, painel digital com 10,25 polegadas, chave presencial para travas e ignição, banco do motorista com ajustes elétricos, acabamento em couro e suede, movimentação elétrica da tampa do porta-malas, ar-condicionado de duas zonas e central multimídia com tela de 10,1 polegadas, com espelhamento sem fio e conexão através do Apple CarPlay e Android Auto.
Específicos da versão Overland são rodas de liga aro 19, acabamento na cor marrom, banco do carona com ajustes elétricos, teto solar panorâmico, som da Harman/Kardom e plataforma Adventure Intelligence, com roteador wi-fi e interface via Alexa. Este sistema ainda dá acesso a dados e funções do carro via celular, como localizar e atuar nas travas, ignição, etc.

A parte de segurança do Commander Limited traz sete airbags e diversos recursos dos chamados sistemas avançados de assistência à condução (ADAS), como controle de cruzeiro adaptativo, alerta de colisão com frenagem autônoma e detecção de pedestres, ciclistas e motociclistas, detecção de ponto cego e de tráfego traseiro cruzado, sistema de manutenção de faixa de rolagem, detector de fadiga do motorista, reconhecimento de placas de velocidade, comutação automática de faróis e sistema de estacionamento semiautônomo.
O Commander é montado sobre a plataforma alongada do Renegade e Compass. Ela foi aumentada tem todas as dimensões para poder oferecer espaço para sete ocupantes. As dimensões são 4,77 metros de comprimento, 2,80 m de entre-eixos, 1,70 m de altura e 1,86 m de largura. O porta-malas oferece 233 litros de capacidade na configuração para sete passageiros, 661 litros com cinco ocupantes e 1.760 litros com apenas dois lugares (Texto e fotos de Eduardo Rocha, Auto Press).
Ponto a ponto
Desempenho – Os 180/185 cv de potência com gasolina e etanol só aparecem em giros mais altos e acabam sendo efetivos de fato em ambientes rodoviário. Nas acelerações e retomadas, fica em evidência o torque de 27,5 kgfm, que é apenas modesto para os 1.715 kg do modelo. Por isso o escalonamento do câmbio de seis marchas traz as duas primeiras marchas bem curtas, para dar alguma agilidade ao modelo, principalmente em ambiente urbano. Ainda assim, o zero a 100 km/ fica em torno de 10 segundos. A máxima fica pouco acima de 200 km/h. Nota 6.

Estabilidade – A suspensão, independente nas quatro rodas e de curso longo, equilibra os movimentos da carroceria nos trechos mais esburacados, mas de acordo com o número de passageiros a bordo, deixa a carroceria rolar sutilmente nas curvas. A aderência é incrementada pelo conjunto de rodas aro 19 e pneus 235/50 da versão Overland, que dobra menos que o da Limited, 235/55 R18. O controle eletrônico de estabilidade e tração não é muito invasivo, mas os sistemas de condução autônoma são um tanto exibidos e chegam a incomodar pelas reações exageradas. Nota 8.
Interatividade – O interior do Commander é bastante funcional e tudo é bem localizado. Boa parte dos comandos podem ser acessado através do volante multifuncional, que permite navegar pelo computador de bordo. O modelo tem ainda sistema de estacionamento semiautônomo, além de contar sensores dianteiros e traseiros, combinados com a câmera de ré, ajudam a estacionar no modo tradicional. A central multimídia traz uma tela de 10,1 polegadas e a interface é bem amigável. Ela conta com GPS nativo, espelhamento sem fio e a plataforma Adventure Intelligence, roteador interno e funções remotas via celular. A transmissão automática traz aletas no volante para trocas manuais. Nota 9.
Consumo – O InMetro avaliou o consumo do Commander Overland T270 em 6,8 e 9,8 km/l na cidade, enquanto na estrada a média foi de 8,3 e 11,8 km/l, com etanol e gasolina. Isso rendeu notas C na categoria e C no geral. São índices esperados pela combinação de peso/potência de 9,3 kg/cv em um carro com mais de 1.700 kg. Nota 6.

Conforto – O Commander é, sem dúvida, o mais refinado entre os carros produzidos no Brasil. Ele roda de forma suave e tem um ótimo isolamento acústico – o motor só é ouvido para os giros são elevados. Os bancos são macios e bem estruturados, o que garante o conforto mesmo após muitas horas. O espaço no habitáculo é excepcional para quatro ocupantes, com a fileira central recuada, e muito bom para cinco. Os lugares da terceira fileira são indicados apenas para passageiros de menor porte e que tenham uma boa flexibilidade, pois o acesso não é muito facilitado. O conjunto suspensivo é bem firme, mas filtra bem as irregularidades. Nota 8.
Tecnologia – O Jeep Commander Overland é muito bem fornido de equipamentos e tecnologias. De condução autônoma, ele traz controle de cruzeiro adaptativo, estacionamento semiautomático, monitoramento de faixa de rolagem, alerta de colisão com frenagem automática. A versão traz uma central multimídia com o máximo de conectividade, inclusive funções via celular, e tem interface agradável e simples. Já painel digital configurável, de 10,25 polegadas, é um pouco mais difícil de dominar pela grande variedade de opções. Nota 9.
Habitabilidade – A altura do Commander facilita a entrada e saída do carro e oferece muito espaço no interior. O aproveitamento dos espaços com porta-trecos é bem inteligente e o porta-malas na configuração para cinco passageiros leva generosos 661 litros. O teto panorâmico torna o ambiente ainda mais atraente. Nota 9.

Acabamento – O padrão de acabamento do Commander Overland é o mais elevado da marca, com um cuidado na montagem visível. Há pouco plástico rígido exposto no habitáculo. A não ser em pontos estratégicos, todos revestimentos são em material macio, de toque agradável e boa qualidade. A cabine tem luxo, com revestimento em couro e detalhes cromados e em alumínio, e se destaca no segmento de SUVs médios. De forma geral, o Commander Limited é bem-acabado, tem um interior agradável e bem finalizado. Nota 9.
Design – O design do Commander disfarça bem o alongamento necessário para oferecer lugar para sete passageiros. Mas como todos os modelos com esta configuração o Commander não escapa da sina da desproporcionalidade. Os projetistas da Stellantis buscaram amenizar isso com o teto recortado e os conjuntos óticos elevados e afilados. O modelo respeita o “guide line”, como a grade de sete fendas, as caixas de rodas trapezoidais, mas tem uma frente mais aguda, que suaviza o volume frontal e dá maior refinamento ao visual. Nota 8.

Custo/benefício – O Commander Overland T270 custa R$ 276.290 e tem como único rival direto com sete lugares o Mitsubishi Outlander 2.0 HPE, que tem também tração dianteira, mas é menos potente e é muito menos equipada – não tem sequer câmera de ré. Apenas a versão 3.0 V6 4X4 tem recursos de condução autônoma, mas é bem mais cara. A combinação de conteúdo e preço explica um pouco o bom desempenho do Commander. Nota 7.
Total – O Jeep Commander Overland T270 somou 79 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir
Dinâmica de equilíbrio
O Jeep Commander encontrou no Brasil condições favoráveis para emplacar no mercado. Além do próprio prestígio da marca, tem uma escolha de materiais que ressaltam uma ideia de luxo e requinte como em nenhum outro modelo do segmento. Couro, alumínio, cromados e guarnições em preto brilhante criam uma atmosfera de alto luxo. Teto solar panorâmico, os bancos robustos, que mais parecem poltronas, as duas generosas telas em LCD (painel e multimídia) e tablier com revestimento em Suede complementam o ambiente e emprestam também a ideia de tecnologia.

No caso do Commander, essa ideia é bem justificada. O modelo conta com um bom pacote de assistentes à condução, ADAS, chave presencial, tampa traseira elétrica com sensor de presença, sistema de conectividade com funções via celular, estacionamento semiautônomo. É bem verdade que alguns desses recursos autônomos não foram desenvolvidos para um país em que se pode deparar a qualquer momento com condições de rodagem precárias, como o Brasil. É possível ter de brigar com o volante quando, por exemplo, o centralizador de faixa insiste em manter a rota para um buraco, que não é compreendido pelo sistema. O alerta de colisão também mostra reações um tanto exageradas. Obviamente, estes recursos podem ser desativados nas configurações do veículo. O problema é que é preciso desativá-los a cada vez que o carro é ligado, pois o sistema não memoriza estas preferências.

Dinamicamente, o Commander imprime um ritmo sereno, sem grandes arroubos nas acelerações e retomadas. Pode-se dizer até que as reações ao acelerador são elegantes. Na cidade e em rodovias, o Commander se movimenta bem, mesmo que não seja um exemplo de agilidade. Por outro lado, mantém a coerência com a proposta do modelo. Um SUV-D com sete lugares não é pensado para arrepiar em arrancadas e curvas.

Em trechos de terra, o Commander não sofre. Ele oferece uma boa altura livre para o solo, bons ângulos de entrada e saída e ainda o sistema Traction Control+, que desabilita o controle de tração e usa o ABS para frear individualmente uma roda que esteja patinando, para que o torque seja direcionado para a roda de melhor aderência.
Em marcha, este Jeep transmite sempre a ideia de controle. A grande carroceria mantém o equilíbrio e não aderna nos trechos sinuosos, muito por conta do acerto da suspensão, que é ligeiramente rígida, mas filtra muito bem as pequenas irregularidades. Uma fórmula muito bem pensada de modelo familiar capaz de oferecer passeios agradáveis, com conforto, luxo
Ficha técnica
Jeep Commander Overland T270
Motor: Flex, dianteiro, transversal, 1.332 cm³, com quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro, comando simples no cabeçote e sobrealimentado por turbocompressor. Acelerador eletrônico e injeção direta de combustível.
Transmissão: Câmbio automático com seis marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira com sistema Jeep Traction Control+. Controle eletrônico de estabilidade e tração.
Potência máxima: 180/185 cv a 5.750 rpm com gasolina/etanol.
Aceleração de zero a 100 km/h: 9,9/10,6 segundos com etanol/gasolina.
Velocidade máxima: 200/202 km/h com gasolina/etanol.
Torque máximo: 27,5 kgfm a partir de 1.750 rpm.
Diâmetro e curso: 70 mm x 86,5 mm. Taxa de compressão: 10,5:1.
Suspensão: Dianteira McPherson com rodas independentes, braços oscilantes inferiores com geometria triangular e barra estabilizadora. Traseira McPherson com rodas independentes, links transversais/laterais e barra estabilizadora. Oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos nas quatro rodas com ABS, EDB, assistência de partida em rampa e frenagem autônoma.
Pneus: 235/50 R19.
Carroceria: Utilitário esportivo em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Com 4,77 metros de comprimento, 1,86 m de largura, 1,70 m de altura e 2,79 m de distância entre-eixos. Oferece airbags frontais laterais, de cortina e de joelho para motorista.
Altura para o solo: 208 mm.
Capacidade off-road: Ângulo de entrada de 20,1°, de saída de 22,2° e ângulo de rampa de 21,1°.
Peso: 1.715 kg em ordem de marcha, com 540 kg de capacidade de carga.
Capacidade do porta-malas: 661 litros – 233 litros com sete lugares e 1.760 litros com dois lugares.
Tanque de combustível: 61 litros.
Produção: Goiana, em Pernambuco.
Preço da versão: R$ 276.290.





