Injeção de ânimo
Com o motor turbo de 170 cv, Renault Oroch Outsider muda de personalidade e encara Toro e Montana de frente
A Renault Oroch vive uma espécie de vida dupla. Historicamente no Brasil, a picape emplaca por volta de mil unidades por mês, que é um bom desempenho em termos absolutos, mas nem tanto em termos relativos. Afinal, a ideia original da picape era concorrer com a Fiat Toro, já que ambas têm um tamanho intermediário entre as picapes compactas e médias, mas vende bem menos. No entanto, em diversos outros países para onde é enviada, a partir da fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, a Oroch tem uma aceitação bem mais pujante. Um bom exemplo foi o que ocorreu em agosto. A Oroch emplacou na Argentina 2.166 unidades, quase o dobro da média no Brasil e 50% a mais que a Fiat Toro – que no Brasil vende de quatro vezes mais que a Oroch.

Ou seja: as vendas lá ou aqui não são necessariamente uma expressão da qualidade do produto, mas apenas uma contingência de mercado. A Oroch passou por uma renovação em abril de 2022, que se refletiu nas vendas dois meses depois, quando o modelo viu suas vendas retomarem as médias históricas. No visual externo, as mudanças se restringiram à grade e ao para-choque dianteiro. Mas o principal ponto desse rejuvenescimento do modelo veio pela adoção do motor TCe 1.3 com câmbio CVT com oito marchas na versão de topo Outsider. Trata-se do mesmo conjunto usado no Duster e tem rendimento e eficiência capaz de mudar o nível da picape da Renault. A versão tem 163/170 cv e 27,5 kgfm com gasolina e etanol. Isso representa um incremento de 40% na potência e de quase 70% no torque. Além de ter a vantagem de já ter o motor a pleno com apenas 1.600 rpm.

Além da diferença abissal no desempenho, a Oroch 2023 passou por uma redecoração completa no interior. Na versão avaliada, Outsider, o modelo traz revestimento em couro sintético nos bancos, portas, apoio de braço, volante e coifa do câmbio. O console frontal ganhou linhas mais limpas, com as saídas de ar integradas e um ganho nessa nova organização foi a elevação da tela de 8 polegadas da central multimídia, que fica no alto do console, alinhada com o painel de instrumentos. Além de ser reposicionada, o sistema agora conta com espelhamento sem fio. Com esse reposicionamento, abriu um espaço para um porta-objetos bem acessível, a meia altura do console central.

Como versão topo de linha, a Outsider traz toda a oferta de equipamentos da gama. Mas a lista é menos extensa do que faria supor o preço de R$ 149.400 pedido pelo modelo. De destaque, esta versão da Oroch tem rodas de liga leve, câmera de ré com sensor, sensores de luz e chuva, revestimento em couro sintético, ar-condicionado automático, para-choques de impulsão com faróis de longo alcance e faróis de neblina, alargadores de para-lama e detalhes estéticos como maçanetas pintadas em preto brilhante, por exemplo. Já na parte de segurança, o modelo oferece o mínimo possível: airbags frontais, ABS com assistente de partida em rampa, controle de estabilidade e tração com sistema anticapotamento (Texto e fotos: Eduardo Rocha, Auto Press).
Ponto a ponto
Desempenho – O motor TCe 1.3 Turbo transformou a dinâmica da Oroch. A picape mantém o torque máximo de 27,5 kgfm entre 1.600 e 3.750 rpm, ou praticamente todo o regime útil do motor, desde a arrancada até situações de estrada. Além disso, é bem elástico e aos 5.500 giros alcança a potência de 170 cv. Apesar do vigor, o modelo é bem dócil aos comandos do acelerador e a relação com o câmbio CVT com oito velocidades pré-programadas lida bem com as exigências. Nota 9.

Estabilidade – A suspensão controla bem os movimentos da carroceria da Oroch, inclusive os laterais, apenas da altura elevada da picape. Ajuda nessa neutralização o ajuste mais rígido do conjunto, que privilegia a robustez e a adequação às cargas – que pode ser de até 650 kg. A direção é comunicativa e firme, mesmo em velocidades mais altas. Há um pequeno movimento lateral quando forçado em trechos sinuosos, mas não há qualquer insinuação de descontrole. Nota 8.
Interatividade – O Oroch tem uma interação simples e agradável. A tela de 8 polegadas do sistema multimídia tem boa visibilidade e alguns itens de assistência, como câmera de ré, sensor de estacionamento, sensor de chuva e farol de acendimento automático, são bastante práticos. Há, porém, um problema em relação aos retrovisores externos, muito pequenos para o porte do modelo e a retrovisão ainda é prejudicada pelos ressaltos nos para-lamas traseiros. Nota 8.

Consumo – A Oroch não se saiu bem no Programa de Etiquetagem Veicular do InMetro. Ainda mais porque ela foi classificada como uma picape compacta e por isso é comparada a modelos bem menores e mais leves que ela – a versão Outsider pesa 258 kg a mais que a Fiat Strada Volcano, por exemplo. O consumo aferido foi de 7,4/7,8 km/l na cidade/estrada com etanol e 10,5/11,0 km/l com gasolina, nas mesmas condições. Isso representou notas “E” em sua categoria e “C” no geral. Nota 5.
Tecnologia – A plataforma é a mesma B0 usada no SUV Duster, mas com reforços estruturais e um alongamento no entre-eixos de 16 cm. É robusta e funcional. O motor, desenvolvido em conjunto com a Mercedes-Benz, é recente (2018) e bem eficiente. E consegue uma boa interação com a transmissão CVT, de origem Nissan. A central multimídia é moderna, oferece espelhamento sem fio. Mas em relação à segurança, a Oroch deixa a desejar, ainda mais levando-se em conta o preço acima de R$ 145 mil. A picape traz apenas itens obrigatórios. Nota 7.
Conforto – A arquitetura original de um SUV, com o entre-eixos alongado em 16 cm, favorece o espaço na cabine da Oroch. Há uma boa altura interna, bancos dianteiros ergonômicos e banco traseiro razoavelmente confortável. A suspensão foi pensada para ser resistente e, por isso, sacrifica um pouco os ocupantes em trechos esburacados, mas tem um bom curso, o que acaba se refletindo em uma certa maciez de rodagem. O isolamento acústico é aceitável para uma picape. O som rascante do motor turbo entra com facilidade no meio da conversa quando é exigido. Nota 8.

Habitabilidade – Internamente, a Oroch é mais funcional que o do Duster, pois traz a tela elevada para a central multimídia. As superfícies têm aspecto agradável e resistente. O modelo ganhou um bom nicho no console central, logo abaixo da fileira de botões, onde antes se encaixava a tela da central multimídia. A caçamba comporta bons 683 litros até a borda, mas seria indicado algum sistema de subdivisão da área, para que cargas menores não ficassem soltas. O acesso ao interior é facilitado pela altura elevada, mas não exagerada, do modelo. Nota 8.
Acabamento – O interior da Oroch apresenta um design atraente e bem cuidado, com detalhes como os bancos em couro sintético com costura aparente e o friso que atravessa todo o console frontal na cor laranja. Perdeu um pouco do aspecto rústico, mas não chega a parecer requintado. Os encaixes são bons e os materiais parecem confiáveis. Há muitos plásticos rígidos, com detalhes em prata ou cromado para amenizar o visual. Nota 8.

Design – A Oroch trouxe um discretíssimo face-lift, que mudou a grade, com detalhes em cromado nas barras, e no para-choque. As molduras das caixas de roda estão mais proeminentes e acentuam a ideia de robustez. Ou seja: não acompanhou as mudanças promovidas no SUV da marca em 2020. A intenção era mesmo diferenciar mais os dois modelos. Tanto que a picape agora se chama apenas Oroch, sem prenome Duster. É um desenho simpático, mas as linhas gerais não mudaram e já estão um tanto cansadas. Nota 8.
Custo/Benefício – A Renault Oroch Outsider custa R$ 145.700 (a unidade testada fica em R$ 147.700 por conta da cor Cinza Lune. Esse valor é pouco acima da Fiat Toro mais simples, na versão Endurance, que também tem motor turbo e câmbio automático. A Oroch traz alguns itens a mais, como revestimento em couro e câmera de ré, mas perde em número de airbags (dois contra seis da Toro) e também no no controle de tração com bloqueio eletrônico. A picape da Renault não tem vida fácil no mercado brasileiro. Nota 6.
Total – O Renault Oroch Outsider TCe 1.3 Turbo somou 75 pontos de 100 possíveis.
Impressões ao dirigir
Sopro de vida
O motor TCe 1.3 Turbo flex de 170 cv e 27,5 kgfm promoveu uma revolução na dinâmica da Oroch. É verdade que o novo trem de força acrescenta quase 100 kg em relação ao motor SCe 1.6, mas em contrapartida, a potência vai de 118/120 cv para 163/170 cv. O torque sobe de 16,2 kgfm a 4 mil giros para 27,5 kgfm entre 1.650 e 4.250 rpm. A relação peso/potência despenca de 11,2 para 8,4 kg/cv e a peso/torque vai de 82,6 para 52,1 kg/kgfm. O resultado mais palpável é a redução em 25% no tempo do zero a 100 km/h, que vai de 11,8 para 9,9 segundos. No dia a dia, isso tudo se expressa em uma picape que tem acelerações vigorosas e reações rápidas. O câmbio Xtronic, um CVT com conversor de torque com oito marchas, torna os ganhos de velocidade rápidos e progressivos. E o conjunto trabalha de forma silenciosa e suave.

Meio que para coroar essa mudança de patamar alcançado com a nova motorização, a Renault renovou o interior da picape. A novo console frontal usa as entradas de ar do Duster, mas inseridas em um conjunto mais interessante. A tela da nova central multimídia – com espelhamento sem fio – subiu para o alto do console. Além de melhorar a visualização, abriu espaço para um bom porta-trecos no console central. Acima do porta-luvas, foi criado um outro nicho com um tapete de borracha para colocar objetos. Painéis das portas, apoio de braço e acabamento dos bancos também foram mudados.

O espaço interno não sofreu modificações. A picape da Renault já oferecia boas acomodações para quatro passageiros, inclusive os traseiros, que contam com um encosto com a inclinação correta para oferecer conforto. Ainda hoje há picapes médias que trazem um encosto muito vertical, como os de banco de ônibus, por conta da falta de espaço na cabine. No mais, todas as mudanças promovidas pela marca francesa tornaram, de fato, a Oroch mais atraente.

Ficha técnica
Renault Oroch Outsider TCe 1.3 Turbo
Motor: Gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.332 cm³, com turbocompressor, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro, comando duplo variável no cabeçote e variador de fase com comando eletrônico. Acelerador eletrônico e injeção direta de combustível.
Transmissão: Continuamente variável (CVT) com conversor de torque opção de trocas sequenciais de oito marchas pré-programadas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 162/170 cv com gasolina/etanol entre 5.500 e 6 mil rpm.
Diâmetro e curso: 72,2 mm X 81,4 mm.
Taxa de compressão: 10,5:1
Aceleração 0-100 km/h: 9,9 segundos com etanol.
Velocidade máxima: 189 km/h com etanol.
Torque máximo: 27,5 kgfm com etanol e gasolina entre 1.600 e 3.750 rpm.
Suspensão: Dianteira do tipo McPherson com braços inferiores, amortecedores hidráulicos telescópicos, e molas helicoidais e barra estabilizadora. Traseira tipo Multilink independente, barra estabilizadora e amortecedores hidráulicos. Controle eletrônico de estabilidade.
Pneus: 215/60 R17.
Freios: Discos ventilados na frente e a tambor atrás. Oferece ABS com controle de saída em rampa.
Carroceria: Crossover em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Com 4,72 metros de comprimento, 1,82 m de largura, 1,70 m de altura e 2,83 m de entre-eixos. Oferece airbags frontais de série. Altura mínimo do solo de 21,2 cm.
Peso: 1.432 kg.
Capacidade da caçamba: 683 litros.
Capacidade de carga: 650 kg
Capacidade tanque de combustível: 46 litros.
Preço da versão: R$ 149.400.
Preço da unidade avaliada: R$ 151.400.





